Twitter Mona Gadelha

segunda-feira, 23 de abril de 2012

A canção de Caio e Graco


Conheci Caio e Graco no lendário I Concerto de Rock do Ceará (sim aconteceu, em 1974). Mas só nos tornaríamos amigos durante as gravações do álbum Massafeira, no Rio. Em comum nossa paixão por Bob Dylan e tantas outras, que sempre renderam longos e divertidos papos especialmente com Graco, que mora em São Paulo. Esses dois irmãos cearenses são autores de grandes canções da Música Popular Brasileira e também parceiros de vários músicos e poetas. Graco fez música com Belchior, Ednardo, Augusto Pontes, mais recentemente com Reinaldo Bessa, Mario Montaut, Daniel Taubkin; Caio com Fausto Nilo, Francisco Casaverde. Uma obra vasta, consistente, bela. Eles foram gravados por Fagner, Simone, Belchior. A lista é enciclopédica.
A canção emblemática de Caio e Graco, sucesso nacional, na trilha de uma novela da Rede Globo assinada por Janete Clair, interpretada por Fagner, é “Noturno”, que por esse motivo exposto, muita gente também chama de “Coração Alado”.
Quando fui escolher o repertório de “Praia Lírica”, essa música dos meus amigos, já interpretada por muitos cantores, como o próprio Graco me contou um dia, representava mais um risco a correr. Quando ouvi o arranjo do Fernando Moura, fiquei muito emocionada. E minha ideia era quase “dizer” o poema-letra que é “Noturno”, uma das mais belas canções da MPB.   
Lembro de um show que fiz no Teatro Hall e convidei o Graco para uma participação especial. Ele tocou violão e nós cantamos algumas pérolas cearenses. Esse retrato em preto e branco está na “parede da memória” não como uma “lembrança que dói mais”, mas com vontade cada vez mais de mostrar (e relembrar para muitos) a beleza dos versos de que são capazes de escrever os poetas da minha terra. 

sexta-feira, 16 de março de 2012

A Manga Rosa, primeira gravação














Essa deliciosa canção de Ednardo entrou no repertório de Praia Lírica por sugestão de Fernando Moura. Até me surpreendi quando a vi na lista. Esqueci que o piano do Fernando pode tudo? Era só lembrar o que ele havia feito em “Bloco da Solidão (Evaldo Gouveia/Jair Amorim) para o disco “Tudo se Move” (2004). Então eu topei. Mas não era a primeira vez que eu cantava essa música.
Ao mesmo tempo trazia a lembrança da minha primeira gravação num estúdio. No Rio, naquele ano de 1979, quando estávamos (uns 40 cearenses!) no Hotel Santa Tereza para a produção do álbum Massafeira.
Ednardo produzia seu disco ("Ednardo, CBS, 79") e  nos convidou – Teti, Angela Linhares e eu para fazermos os vocais da música, que acabara de nos mostrar no hotel. Tão bela letra, linda canção. Houve um entusiasmo das três naquele momento tão especial para mim. E fomos para o estúdio, com o simpático Toninho, o técnico animadíssimo (a voz dele ficou registrada na introdução da música). Cantamos a letra inteira, não só o refrão. Que privilégio poder desfrutar da companhia de Ângela e Teti, duas das mais belas vozes do Ceará, e compartilhando com Ednardo uma de suas grandes criações.
O Fernando escreveu um arranjo com a sua marca, em que o piano se agiganta e passeia por notas altíssimas e eu me mantenho grave – porque era essa a intenção. Não foi fácil,não. Mas eu fiquei contente pacas com o resultado. Como diz o Toninho, no disco de Ednardo: “Manga Rosa rodando...”. O mundo gira e aqui estamos nós sorvendo o supremo sumo desta manga. Na foto, Angela e Teti, saudade de ouvir essas vozes.

quinta-feira, 19 de janeiro de 2012

30 anos esta tarde



O dia virou noite no Rio de 19 janeiro de  1982. No meu segundo ano da faculdade de comunicação, eu era repórter do caderno Domingo do jornal O Povo, com Izabel Pinheiro e Nonato Albuquerque, por obra e graça do Luis Sergio Santos, ex-colega na UFC, que cometeu a “contravenção” de me levar para a redação ainda sem diploma. 
Mas eu fui parar no Rio porque Xico Chaves me convidou para gravar uma demo no estúdio da Polygram. Ele ouviu o álbum Massafeira   e falou pro Stelinho (Stélio Valle), que me ligou e fez a ponte. O jornal me liberou para fazer entrevistas, e lá fui eu pro Rio, com o Xico me apresentando para todo mundo.
Como ia produzir a fita (naquela época era assim, com não sei quantas polegadas)? Sorte que era amiga do  Rui Motta, que "montou" a banda para a gravação. 
Conheci todos no estúdio: Paulinho Guitarra, Chico (baixo) e esse cara que fez o CD Praia Lírica comigo, Fernando Moura. Gravamos em duas horas (!) duas faixas, "Imagine Nós", que mais tarde, entraria no meu primeiro CD (Movieplay, 1996) e "Escorpião", até hoje inédita.
No dia da apresentação para o então diretor artístico da Polygram, Roberto Menescal...ah, foi nessa tarde, 19 de janeiro de 1982, o dia em que Elis Regina deixava aquele céu do Rio de Janeiro totalmente cinza.Eu tinha que voltar pra redação, pro jornal.E trouxe a fitinha comigo.
Pensei que a tivesse perdido na minha mudança para São Paulo. Mas não. Achei ontem! Mostro aqui no link abaixo, numa brincadeira de fotos recentes e antigas. Há até uma do Fernando com nosso grande ManassésClaro, a qualidade é de fita cassete de 30 anos! 
video
De volta a Fortaleza, a faculdade, não levei um contrato com a Polygram, mas comecei uma amizade que permanece, com muitos trabalhos produzidos juntos, como o disco Praia Lírica. E antes disso, arranjos e piano para o primeiro CD, parcerias e produções no terceiro disco Tudo se Move. Além de mais uma história pra contar. 

segunda-feira, 16 de janeiro de 2012

Augusto





Não, não abandonei o barco. Depois de um longo tempo sem escrever, volto à maré.
Fiquei emocionada com o convite da Prefeitura de Fortaleza para a abertura do show do Reveillon 2011, pois foi fruto desse disco. Montamos o show com a banda formada por Edmundo Jr. (baixo), Mimi Rocha (guitarra), Herlon Robson (acordeon, violão), Daniel Alencar (bateria), Hoto Jr. (percussão) e participação de um grupo de percussão, conduzidos pela direção de Fernando Moura, adaptando os arranjos concebidos inicialmente para voz e piano.
No repertório incluí “Lupiscínica”, de Augusto Pontes e Petrúcio Maia. Augusto foi um amigo querido desde sempre. Eu o conheci em 78,79, na época da articulação em torno dos shows “Massafeira”, no Teatro José de Alencar (Fortaleza, CE). Vendo seu depoimento no documentário de Julia Limaverde e Ednardo sobre o tema na exposição Fortaleza 1970-2010 (Centro Dragão do Mar), comove a sua crença na amizade, na celebração coletiva.   
Um dia, quando ele era secretário de cultura do Ceará, passamos uma longa tarde conversando. Ele cheio de idéias para shows e me contando tantas coisas dos bastidores da “Massafeira”, que eu, tão menina na época, nem fazia idéia.
No grupo de artistas que viajou depois dos shows para participar do álbum duplo (relançado em 2010) eu, a banda Perfume Azul e Lúcio Ricardo éramos da turma do rock. Augusto, com Ednardo, nos colocou naquela trupe.
Na mesma época, lembro de Augusto, Ednardo e Téti conversando sobre a linda gravação de “Lupiscínica”, para o disco de Ednardo, no estúdio da CBS, no Rio, lançado em 79. Que privilégio meu assistir os dois gravando as vozes.
Claro que recordei tudo isso no palco do Aterro da Praia de Iracema e no show do Teatro José de Alencar, que ainda teve uma emoção a mais, com minha irmã, Laiza, dançando o bolero de Augusto e Petrúcio com o dançarino Lindenberg.
Lupiscínica é a única faixa do disco em que eu e Fernando Moura gravamos juntos - em São Paulo, no Estúdio Guidon. As outras faixas foram gravadas ele no Rio, eu em São Paulo.
Não tive tempo de mostrá-la a Augusto. A gente se encontrou tão pouco nas vezes em que fui a Fortaleza depois de me mudar para São Paulo. Mas era sempre uma alegria, uma saudade ouvi-lo, como na derradeira vez, quando Ricardo Bezerra me levou para as gravações de um documentário sobre o Pessoal do Ceará. E estavam lá Augusto, Rodger, Stélio Valle, Chico Pio, grandes compositores cearenses.
Augusto me levou para trabalhar com publicidade, na lendária agência Scala, onde ele era o diretor de criação. Eu escrevia minhas letras, minhas canções, e ele intuitivamente me perguntou se não escreveria anúncios também. Fui. Esta passou a ser outra experiência marcante pra mim, pro meu modo de pensar, para os caminhos que seguiria depois. Augusto, sempre abrindo portas. Acreditando na amizade.      


sexta-feira, 11 de novembro de 2011

Fernando Chuí







A capa de Praia Lírica é assinada por Fernando Chuí. Ele é um daqueles artistas renascentistas que nascem com o dom de tocar, desenhar, escrever. Fiquei tão encantada com seus desenhos que o convidei pra fazer a capa de Salve a Beleza. Depois não resisti e o convoquei de novo para o “Praia”. Fernando teve toda a paciência para minhas idas e vindas, certezas e indecisões,  sempre interessado em contribuir para o bom resultado, achar a melhor saída.
No final, vendo que eu estava indecisa entre duas fotos de Francisco Sousa, ele mesmo escolheu e montou a capa com as duas. Para o disco Salve a Beleza, fez desenhos que acho muito bonitos, alguns sobre fotos de Claudio Lima, Ana Komel e Maira Sales.
Quem me apresentou ao Fernando foi o poeta Fabrício Carpinejar, com quem fizemos o recital lítero-musical “O Dom do Ciúme” com base em Dom Casmurro, de Machado de Assis, projeto que contou também com a participação de Luiz Ruffato e José Roberto Guedes.
Em Salve a Beleza, gravei uma canção dele de letra engenhosa, Estrela Morta. Uma forma de falar de amor bastante original (e olha que não é fácil). “Como uma estrela morta/ quer tudo para si”. Não é genial? Para ouvir, clique em http://soundcloud.com/mona-gadelha/02-estrela-morta .

quarta-feira, 14 de setembro de 2011

O fotógrafo



Francisco é ele, o boto. Nascido no Pará, morando em Fortaleza. Conheci suas fotos nos livros que fez em parceria com Gilmar de Carvalho (Artes da Tradição, Rabecas do Ceará, entre outros). Generoso, atencioso, amoroso. Tenho muita sorte com fotógrafos! Trabalhei no jornalismo e na publicidade com vários (Chico Albuquerque, Mauricio Albano, Gentil Barreira, Ed Viggiani, Celso Oliveira, Vidal Cavalcante, Claudio Lima, Silas de Paula, Carlos Gadelha, Arnaldo Pereira, Márcio Távora. Deve estar faltando mais nomes). Fiz fotos com todos eles e com as meninas (Kátia Lombardo, Maira Sales, Sheila Oliveira, Marise Rangel, Ana Elisa Komel, Renata Alexandre). A fotografia é uma arte que amo. Tanto que fui coordenadora do Ponto de Cultura Memórias do Olhar. Especializado em quê? O nome já diz.  


Chamei Francisco pra fazer a capa do Praia Lírica. Escolher a foto da capa do disco é tão importante pra mim quanto o repertório (continuo achando que um disco é uma narrativa). E produzir a capa também é uma das partes mais dolorosamente prazerosas.
Primeiro fizemos uma sessão de fotos na Praia do Mucuripe. Outras no Passeio Público. Com essas fotos, montamos o projeto e fomos procurar os recursos. Nesse intermezzo, montei com Maira Sales e Gilmar de Carvalho a primeira exposição de Francisco Sousa em São Paulo, na CAIXA Cultural, a bela Cemitério Marinho.




Um dia vi os registros que Francisco havia feito em Camocim. Paixão à primeira  vista. Queria aquela luz na capa do disco. Contei pro Gilmar e ele generoso, como sempre, organizou nossa viagem.Três dias fotografando. Horas e horas, tardes e manhãs. Eu não me canso. Com fotógrafo, eu topo tudo.
Maira Sales foi também e, de outro ângulo, com nova luz, fez a foto da capa do quarto CD, Salve a Beleza. Valeu essa viagem à  movimento dos barcos de Camocim, lembrando o clássico de Macalé.



Obrigada, Francisco, pelas fotos da capa. Era tudo que eu queria.





terça-feira, 23 de agosto de 2011

O piano





Conheci Fernando Moura em 82. Eu estava no Rio a convite do Xico Chaves, que por sua vez foi me apresentado por telefone pelo Stelinho (Stélio Valle, grande compositor cearense). O Xico tinha conseguido um horário no estúdio da Polygram e precisava chamar os músicos. Aí entra em cena o Rui Motta (eu tenho o privilégio de ser amiga dele também) que trouxe a banda - ele, Chico no baixo, Paulinho Guitarra e o Fernando nos teclados. Gravamos duas músicas (“Imagine Nós” e “Escorpião”, esta com a participação da Aurea Regina, na gaita).
Nunca esqueci a generosidade do Rui e do Fernando naquela noite na Barra. Fernando com seus longos cabelos a La Rick Wakeman, fez rapidamente um arranjo pra “Imagine Nós”, que só vim a gravar de fato no meu primeiro CD (Movieplay, 1996). Nesse disco, contei com a participação dele e do Rui, para a minha alegria. Os únicos músicos do Rio, se somando aos outros 22 (!) que gravaram em São Paulo, produzidos por Alexandre Fontanetti.
Um salto no tempo e eis o Fernando dividindo comigo o CD Praia Lírica. Antes fizemos duas músicas (“Tudo se Move” e “Noturna”, do CD de 2004).
Eu sabia que estava com a pessoa certa pra concretizar esse trabalho. Além da amizade de tantos anos, o conhecimento que ele tem da música do Ceará, o seu convívio com toda a turma daquela época.
A cada música escolhida e a cada arranjo que o Fernando mandava, eu me emocionava. Gravamos separados – ele no Rio e eu em São Paulo, no Space Blues, do Alexandre. Muitos emails trocados do Japão pra cá. “Paralelas” ele mixou em Tokio.
Juntos, fizemos apenas “Lupiscínica”, no estúdio Guidon, na Aclimação, no intervalo de um show que ele estava fazendo com o cantor japonês Kazumi Miyazawa. 
Demoramos todo esse tempo para dividir o mesmo palco – embora musicalmente o nosso encontro tenha começado naquela noite perdida dos anos 80. E havia de estarmos sós, eu e ele. Uma companhia que me honra.